O Problema das Consultas Relâmpago em Psiquiatria.

Antes de tudo, gostaria de dizer que ao longo dos meus 23 anos de carreira médica sempre me posicionei ao lado das reivindicações dos colegas médicos por melhores condições de trabalho, remuneração digna, respeito ao profissional médico, dentre outros aspectos com os quais, nós médicos, lidamos em nossa profissão.
Ressalto ainda que o modo como cada profissional médico trabalha é algo de sua inteira responsabilidade, não me cabendo, inclusive, tecer crítica alguma a quem quer que seja, pois todos nós possuímos nossos pontos positivos e, também e lamentavelmente, nossas imperfeições.
O que, na realidade, me motivou a escrever este breve artigo é o número crescente de pacientes que se queixam de não terem sido ouvidos de modo satisfatório em seus relatos ao psiquiatra.
A Psiquiatria é uma especialidade médica de alta complexidade e que requer sejam abordados não só os problemas mais imediatos que afligem a quem nos procura, como também o ambiente familiar, social, as condições de trabalho da pessoa, seu modo e estilo de vida, o histórico familiar e, principalmente, os detalhes do sofrimento psíquico e afetivo de quem busca ajuda especializada a fim de tratar do problema que o aflige. E isto demanda tempo!
Por isso faço questão de permanecer uma hora conversando com meus pacientes.
Se há colegas psiquiatras que possuem a habilidade de realizar um bom trabalho em menos tempo (e estes colegas existem), parabenizo-os pela destreza e pela boa capacidade técnica que possuem. Porém, no meu caso, realizar uma consulta psiquiátrica em 15 minutos é algo completamente fora de cogitação. E penso que este é um direito que me cabe.
Habilidade, Destreza ou Pressão?!
Logo nos meus primeiros meses de atividade médica, há mais de vinte anos, como já dito, meu primeiro emprego foi em um ambulatório no Rio de Janeiro, onde nasci e me formei. Sou carioca da gema. E para quem não sabe, Carioca (Cari + Oca) na língua indígena significa “casa do branco”, possivelmente o termo que os índios nativos utilizavam para se referir às casas dos imigrantes que chegavam de diversas partes do mundo para se estabelecer no Rio de Janeiro.
Lembro-me que iniciava os atendimentos médicos logo bem cedo, e havia duas salas, uma ao lado da outra, e em frente de cada uma das salas, bancos de espera.
Todas as manhãs ao chegarmos, eu e a colega médica que trabalhava na sala ao lado, os bancos estavam sempre cheios. Eram cerca de 5 horas de atendimento médico praticamente ininterruptas até o horário do almoço.
Com o passar dos dias comecei a notar algo curioso: Quando eu ainda estava com cerca de metade dos meus pacientes ainda por atender, com metade dos bancos ocupados com os pacientes aguardando a hora de serem chamados, os bancos de espera que ficavam na frente da sala onde atendia minha colega médica já estavam todos vazios.
Abaixo transcrevo um pequeno trecho de uma matéria publicada na Gazeta do Povo em 18/03/2011 assinado por José Fernando Macedo, Presidente da Associação Médica do Paraná.
“Os médicos que estão se descredenciado estão afirmando que não realizarão consultas relâmpago, não cobrarão por fora, não permitirão a atuação médica sem o tempo e o carinho necessários para a realização da boa medicina.”
Congratulo-me como o colega Dr. José Fernando Macedo!

Médico Psiquiatra e Nutrólogo
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