Transtornos Ansiosos Fobia Social e Propranolol
Dr.
Sofro de fobia social. Tenho um serio problema em falar em publico, só
de pensar em participar de alguma reunião no trabalho fico nervoso
tremendo muito, minha garganta fecha, não consigo raciocinar direito,
ler em público então não dá de jeito nenhum. Fiquei sabendo de um
medicamento chamado Propanolol que comecei a fazer uso há dois dias, deu
para sentir uma diferencia. Nunca tive problemas se saúde acho que o
medicamento não irá me fazer mal. Mas não quero usar o remédio para
sempre, depois que comecei a tomar o medicamento, o tremor nas mãos
passou e não fico mais com o meu coração acelerado, e tive mais
confiança para conversar com as pessoas socialmente de boa olho no olho.
Também né, sem parecer que o coração irá sair pela a boca fica mais
fácil. Mas ainda não sei se teria coragem de encara uma faculdade sem
ficar orando na sala o tempo todo. É engraçado mais é assim, e não quero
mais viver nessa ansiedade, angustia. Por favor, me responda!!! Quais os
efeitos do Propanolol? Que mal pode me fazer o remédio? O que o Senhor
(a) sugeria? Desse já agradeço!!!!
Um famoso cantor de ópera, falecido há não muito tempo, contou em uma entrevista que os momentos que antecediam sua entrada no palco eram os piores momentos de sua vida. Uma angústia terrível, aceleração dos batimentos cardíacos, turvação do pensamento e tensão muscular eram alguns dos sintomas que ele sentia. Porém, já que sua carreira dependia das apresentações em público, ele treinou a si próprio a fim de suportar essas manifestações ansiosas, percebendo que quando entrava no palco os sintomas cessavam.
Todo ser humano quando diante de situações de grande expectativa, situações de ameaça, perigo ou hostilidade, tende a apresentar uma reação semelhante ao do cantor de ópera. É a chamada “reação de luta ou fuga”, quando mecanismos automáticos e inconscientes de defesa são acionados. Essa reação é mediada por vários hormônios e neurotransmissores, sendo que o papel exercido pela adrenalina já foi bem estudado e é bem conhecido. A adrenalina é a responsável pela aceleração dos batimentos cardíacos, tremores de extremidades, sudorese aumentada e tensão muscular.
Este padrão de reação é fisiológico (normal), sendo que pode ser mais ou menos intenso em algumas pessoas. Porém, se a reação mencionada ultrapassa determinados parâmetros a ponto de se tornar um fenômeno por demais incômodo e que cause sofrimento, então podemos estar diante de um transtorno psiquiátrico. E dentre eles, os transtornos ansiosos são os que mais frequentemente se relacionam a padrões anormais da reação de luta ou fuga.
O Propranolol é um medicamento pertencente à classe dos Beta-Bloqueadores, e o que ele faz é bloquear parcialmente os efeitos da adrenalina nos receptores cardíacos. Ou seja, esses receptores (com os quais a adrenalina interage desencadeando os efeitos acima citados) passam a interagir com a adrenalina em menor intensidade, e isto resulta em uma limitação restritiva para que os batimentos cardíacos não se acelerem muito.
O Propranolol não trata a causa do fenômeno ansioso, mas restringe as suas manifestações através dos mecanismos acima descritos. O Propranolol é um medicamento clássico do território da Cardiologia, e seu uso em Psiquiatria é algo controverso. Principalmente hoje quando se dispõe de medicamentos capazes de intervir de modo mais incisivo nas manifestações ansiosas sem os efeitos colaterais dos Beta-Bloqueadores, os quais podem ser diversos. Porém, não se pode afirmar que seu uso como coadjuvante para o tratamento de transtornos ansiosos esteja errado. Isto fica a critério do médico que o prescreve. O que não pode ser feito, de modo nenhum, é o aumento da dose do Propranolol sem a devida supervisão médica. O abuso ou uso incorreto do Propranolol pode acarretar efeitos indesejáveis perigosos.
Para o paciente, a determinação do que sejam manifestações ansiosas clássicas ou expressões do Transtorno de Fobia Social nem sempre são úteis, pois uma rotulação precipitada (ou diagnóstico mal feito) podem influenciar negativamente a mente do paciente. Vamos a alguns exemplos.
Alguns pacientes me procuram já afirmando que são portadores de Transtorno do Pânico. Relatam seus problemas, apontam para os sintomas, porém alguns assumem para si alguns “sintomas extras”, pois leram na internet quais são os sintomas mais frequentes do Transtorno de Pânico (também chamado de Crise de Pânico ou de Transtorno de Ansiedade Paroxística Recorrente). Após a avaliação psiquiátrica, percebo que muitos deles não são portadores da Doença do Pânico, mas estão apenas sofrendo de manifestações ansiosas simples, alguns em maior ou em menor intensidade. E isto serve para diversas outras situações em Psiquiatria. Seria como dizer que alguns pacientes entram no consultório com um boné escrito “sou bipolar”, outro com uma camiseta com os dizeres “tenho depressão” estampados no peito, e ainda outros com um chaveiro onde estaria escrito “tenho TOC” (Transtorno Obsessivo Compulsivo).
Não são poucos os que, já de pronto, experimentam um enorme alívio ao saberem que podem se desfazer do boné bipolar, da camiseta depressiva e do chaveiro compulsivo. Evidentemente, porém, esta responsabilidade de descaracterizar diagnósticos mal feitos é do psiquiatra. Por isso a avaliação e o tratamento do paciente com sintomatologia psiquiátrica convém serem feitos pelo especialista.
É o que podemos, por hora, lhe informar. Grato pelo seu contato.

Médico Psiquiatra e Nutrólogo
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