Esquizofrenia, Internação Psiquiátrica, SUS, Laudo Médico

boa noite doutor, tenho uma pergunta, tenho um irmão que tem esquizofrenia a 8 anos, ja foi internado 2 vezes alguns anos atras, atualmente faz uso de medicao auto custo fornecido pelo sus, a alguns meses se recusa tomar o medicamento porem foi regredindo aos poucos e agora entrou em colapso, agressivo bate nas pessoas quebra tudo não come nada em casa com desconfiança de tudo vc sabe tudo tipico da doença para resumir eses dias chamei pm e ambulancia levamos para ps, deram diazepan como sempre,não tolera o paciente dispensa,e diz que não pode fazer nada assim que o efeito do sono passa ele volta a (?) tudo de novo, fui ao posto o qual ele fza tratamento o psquiatra nem se quer me ouviu disse que não ia me dar guia de internamento falou que isso não existe fuitratada igual cachorro ps disse que n! (?) expede guia posto com mal vontade não quer tambem nem a diretora do posto teve a boa vontade de me atender, tou com meu filho quebrando tudo me diz por favor o que devo fazer? pois estão fazendo jogo de empurra eu preciso de uma opinão a que devo recorrer? grata .

 

Antes de procurar responder à sua pergunta de modo direto, gostaria de traçar algumas considerações a fim de que esta resposta sirva também de ilustração e de alerta sobre os sofrimentos que os doentes mentais têm vivenciado no Brasil nos últimos anos.

Os avanços no tratamento da Esquizofrenia são inquestionáveis. Desde a década de 50, quando foram introduzidos os primeiros medicamentos antipsicóticos, até hoje, muita coisa mudou no que diz respeito ao tratamento da Esquizofrenia (com seus subtipos). E é verdade que a necessidade de tratamentos em regime de internação psiquiátrica diminuiu consideravelmente, porém não cessou, ou seja, há muitas situações onde o doente mental necessita de internação. E isto não tem como ser mudado, pois há casos de Esquizofrenia refratários aos tratamentos com as medicações modernas, situações em que a família não tem condições para custear o tratamento medicamentoso, não consegue manejar adequadamente o tratamento do paciente, dentre outras situações.

Abaixo cito um trecho de um documento chamado “Mentally Ill in Jail” (Doentes Mentais na Prisão).

“A desinstitucionalização gerou uma crise de doença mental devido ao despejo de pessoas dos hospitais psiquiátricos sem garantir que estes recebessem medicação e serviços de reabilitação na comunidade. Como resultado, o doente mental não tem nenhum lugar para ir para tratamento e apoio. Dois milhões de doentes mentais graves não recebem tratamento psiquiátrico. Em vez disso, eles fora parar em prisões onde são desprovidos de dignidade, de um tratamento adequado e também de compreensão. Doentes mentais foram despejados de hospitais psiquiátricos pois divulgou-se a idéia de que isto lhes permitiria viver em um ambiente mais livre e mais humano com a melhora de seu bem-estar. Em vez disso, vemos instituições psiquiátricas sendo fechadas e amputados os seus orçamentos. Desnecessário dizer que tal utopia não ajudou os milhares de doentes mentais que, além de sofrer de doenças mentais, agora também têm que sofrer as injustiças do sistema social.” (DMCA NEW; Mentally Ill in Jail)

O Brasil tem procurado copiar o modelo de desinstitucionalização norte-americano e os resultados têm sido trágicos. E isto sem falar que as necessidades de tratamento em regime de internação psiquiátrica continuam e o SUS não tem conseguido, nem de longe, responder a estas necessidades de modo adequado.

Já em 2007, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) divulgou um documento que reproduzia uma matéria de um jornal brasileiro cujo conteúdo apontava para o fato de no Brasil existir 16,5 milhões de doentes mentais que precisam de internações. Na referida matéria, o presidente do Instituto de Psiquiatria da USP afirmou o seguinte:

“É como se, acabando com os hospitais psiquiátricos, se acabasse com a loucura”

Hoje, a situação persiste com diversos hospitais psiquiátricos já fechados, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) sem psiquiatras, com falta de medicações, instalações precárias, dentre outras situações que só fazem dificultar a vida do doente mental e de seus familiares.

O que fazer?

Respondendo à sua pergunta, a primeira coisa a ser feita é proporcionar ao doente mental (aqui estamos nos referindo a portadores de Esquizofrenia) uma avaliação médica especializada, ou seja, feita pelo Psiquiatra. Isto fará com que o diagnóstico de certeza seja firmado e a real situação do paciente seja esclarecida e documentada (o que é muito importante - a documentação).

Em se tratando de um paciente esquizofrênico cujo quadro clínico justifique a internação, há que se solicitar ao Psiquiatra que redija um documento de encaminhamento para internação em hospital psiquiátrico. Há que se observar o que diz a lei Lei 10.216/2001. Cito:

Art. 4º: "A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes".

Art. 6º: "A internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos”.

Ou seja, a internação depende de laudo médico. E é de se esperar do médico uma atitude de presteza a fim de tratar do caso, sendo o laudo médico circunstanciado um instrumento que poderá, caso seja necessário, ser utilizado para fins legais.

Já presenciei situações de pacientes tratados pelo SUS, cujas famílias tiveram de recorrer à justiça em razão da necessidade de internação para estes pacientes, pois a mesma estava tecnicamente indicada.

 É o que posso lhe responder no momento.

Se desejar, leia: História da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial

   Médico Psiquiatra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

© Copyright Eduardo Adnet - 2010-2011 - Todos os Direitos Reservados

Home