Esquizofrenia ou Bipolaridade? Limites tênues e delicados de duas Doenças Psiquiátricas Severas
Olá dr. meu irmão a partir dos 26 anos com o término de um relacionamento amoroso, deixou de ser normal. Ficou totalmente perturbado emocionalmente. Se tornou agressivo, triste, doente e passou a se comportar como se fosse um animal. As vezes ele se diz ser o anjo Gabriel, e em seguida o Gladiador, depois o próprio coisa ruim.... Dr será q ele possui o Transtorno do humor bipolar? Já agrediu fisicamente a todos nós. Minha mãe já não vive mais. Vegeta. Obrigada!
(Bahia).
O território da Psiquiatria é tênue e delicado, razão porque há que se ter todo o cuidado antes que se possa firmar um diagnóstico de certeza em Psiquiatria e antes que se façam definitivas afirmações em Psicopatologia (a ciência que trata do estudo e do conhecimento dos transtornos mentais). E uma vez firmado o diagnóstico de certeza, o passo seguinte é o tratamento (Psiquiatria significa: Tratamento da Mente).
Hoje, muito já se avançou quer seja no conhecimento, quer seja no
tratamento de doenças psiquiátricas que evoluem e que cursam com
delírios e ou com alucinações.
Um dos momentos mais marcantes e sérios que já experimentei em minha
carreira médica foi quando atendi a um paciente que se encontrava
muito agitado, bastante agressivo e ao mesmo tempo muito
amedrontado. Sentava-se e se levantava a todo instante e,
sequencialmente, gesticulava de modo a sugerir que estava
telefonando para alguém (era uma situação de delírio com componentes
alucinatórios). Com ares de
seriedade, pegava no gancho do telefone (não havia telefone algum),
“discava”, e “esperava ser atendido”. Quando em sua mente a fictícia
pessoa atendia ao imaginário telefonema, ele “conversava com o
deputado”, e essa conversa ele fazia questão de procurar fazer notar
a todos à sua volta.
Subitamente, levantava os pés do chão pois dizia que havia choques
elétricos no assoalho, e tornava a pousar seus pés no piso
novamente, e isto em uma sequência interminável.
Seu discurso não tinha coerência alguma e nem tampouco suas atitudes
e receios. Tratava-se, neste caso, de um quadro de Esquizofrenia
Paranóide. Ressalte-se que Esquizofrenia e Transtorno Bipolar são
doenças distintas.
Já um outro paciente que tratei, sempre que ingeria álcool começava
a ter pensamentos delirantes de grandeza (Megalomania). Dizia ser
parente de pessoas muito importantes e que detinham muita
autoridade. Afirmava possuir uma fortuna (não era verdade) e gastava
absurdos de dinheiro em uma única noite. Seu comportamento, porém,
era cordial, não se tratando de uma pessoa intimamente agressiva, embora
poder-se-ia ter esta impressão em um primeiro contato com ele. Era
fortemente sedutor ao mesmo tempo que tragicamente vulnerável, pois
não falta gente ruim nesse mundo para se aproveitar das
vulnerabilidades dos outros. Por isso creio, firmemente, no dia do
Juízo de Deus. As
aberturas (brechas) desse paciente eram facilmente identificáveis, daí sua grande
vulnerabilidade, prejuízos e sofrimentos.
Ao mesmo tempo em que ostentava sua “posição” econômica e beleza
física, parece que sentia prazer em ser útil e em custear despesas
de outros nas noitadas que, por vezes, frequentava.
Com o decorrer do tempo (nos períodos de mania) tornava-se
posturalmente agressivo, sem, todavia, jamais ter infligido qualquer
dano grave a alguém. Era ele, sempre, o mais prejudicado.
Neste caso, tratava-se de um autêntico portador do Transtorno
Bipolar, o qual experimentava gravíssimas alterações de humor, ora
estando efusivamente alegre, falante e galanteador, ora pensando
obsessivamente em suicídio.
Como você pode ter observado, há semelhanças entre a Esquizofrenia e
o Transtorno Bipolar, sendo que para quem não é psiquiatra, essas
semelhanças são observadas de modo muito superficial, evidentemente,
pois como já disse, o território da Psiquiatria é tênue e delicado.
Diagnósticos equivocados podem se constituir em autênticas
catástrofes, não só para pacientes mas também para a
família, para os amigos e também para a sociedade.
Você diz que seu irmão passou a apresentar alterações
comportamentais visíveis aos 26 anos de idade, o que pode estar
associado a diversas doenças psiquiátricas cujas manifestações
clínicas dificilmente se mostram muito depois dessa idade. Você
também parece associar o início das manifestações clínicas mais
visíveis ao “término de um relacionamento amoroso”, o que é
compatível com o desencadeamento de sintomas visíveis tanto para a
Esquizofrenia como para o Transtorno Bipolar. Situações dramáticas e
desestabilizantes muitas vezes estão por detrás do desencadeamento
das manifestações clínicas de muitas doenças psiquiátricas, quando
não são elas próprias cofatores autênticos da causa (Etiopatogenia)
e da apresentação de
diversos transtornos psiquiátricos.
Há, porém, uma linha ultra tênue e sobremaneira sensível que nos pode ajudar a distinguir as
manifestações clínicas iniciais da Esquizofrenia e ou do Transtorno
do Humor Bipolar, e este delicado limite diz respeito à lucidez da
interpretação dos fatos ocorridos pós momento de surto. Ou seja,
para o portador de Esquizofrenia, um relato de seu comportamento por
parte de terceiros pode nele suscitar um sentimento de estranheza ou
de perturbadora indiferença. Se alguém lhe conta que ele, na noite
anterior, dizia ser Adão ou Napoleão, a reação pode ser de surpresa
ou de intrigante indiferença ou descrédito, caso haja mesmo se
portado de modo a assumir uma postura autenticamente delirante ou
até mesmo alucinatória (vivência alucinatória). Já em portadores do
Transtorno Bipolar, salvo em raríssimas situações, a narrativa de
seus comportamentos inadequados surte efeitos perturbadores e muito
angustiantes.
No caso do paciente bipolar que citei acima, quando se dava conta do
que tinha feito, ou dito em seus momentos de surto, sua reação era
uma como que uma mistura de surpresa, tristeza, frustração, impotência e
mesmo de doloroso remorso.
Esquizofrenias são doenças primas, frequentemente consideradas e
tidas como sendo pertencentes a um mesmo bloco, quando, na
realidade, há limites surpreendentemente adjuntos entre a sanidade
mental e a loucura literal. E aqui também temos de considerar
limites semelhantes para o Transtorno do Humor Bipolar.
A sugestão para que seu irmão busque uma avaliação psiquiátrica é um
tanto quanto óbvia. Porém, e finalizando, quer se trate de
Esquizofrenia ou do Transtorno Bipolar autêntico, ambas as condições
clínicas são sérias e urgem tratamento psiquiátrico o mais breve
possível.
E anime-se! Pois a Psiquiatria hoje dispõe de recursos
espetaculares. Graças a Deus!
Receba meu carinho em meio a tanto sofrimento!

Médico Psiquiatra e Nutrólogo
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