Sobre Internações Psiquiátricas

Dr. Adnet, minha família está não sabe mais o que fazer. O meu irmão, de 37 anos, piora cada vez mais do transtorno bipolar, e se recusa a se tratar. Tem sintomas clássicos e evidentes da doença. E cada vez mais seguido. Torna-se furioso com facilidade. Arruma confusão, tendo já sido processo criminalmente por conta de excessos de fúria. Põe seguidamente a vida em risco ao sair por aí pra viver como andarilho, dormir na rua e brigar com marginais. Sempre volta pra casa para achacar os parentes, depois some de novo. Já tentaram matá-lo por aí mais de uma vez. O problema é que ele diz que o transtorno bipolar é a sua vida, sua religião, a vida que ele escolheu. Minha mãe não queria interná-lo de novo. Mas se continuar assim, achamos que ele pode até ser morto. Tem algum jeito de obrigá-lo a se tratar,! afora a internação compulsória? Obrigado! (Porto Alegre)

Existem basicamente três situações que envolvem as internações psiquiátricas:

1- Internação voluntária (a que se dá com o consentimento do paciente)

2-Internação Involuntária (a que se dá sem o consentimento do paciente e a pedido de terceiro)

3-Internação Compulsória (a que se dá mediante determinação judicial)

Para casos onde o paciente sendo portador de um transtorno psiquiátrico que requeira tratamento imperativo (principalmente com urgência), mas que recusa ser tratado, porém seu estado e comportamento não põem em risco nem a si próprio e nem a terceiros, mas o tratamento é indispensável, pode ser necessária a internação involuntária. Nesta modalidade de tratamento involuntário, a família pode ter grande participação de auxílio e frequentemente são os familiares que solicitam a internação. Esta modalidade difere em grande medida da internação compulsória. Esta última ocorre por determinação judicial e pode ser aplicada a pacientes que têm o potencial de causar danos a si próprios (suicídio, automutilação, dentre outras situações), ou quando podem por em risco a integridade física de terceiros (quando já não o fizeram).

Porém, as internações não podem ser realizadas a não ser que haja um Laudo Médico Circunstanciado, um documento indispensável, fornecido pelo Psiquiatra, e que pode se constituir em um poderoso instrumento para o bem do paciente, e isto digo porque em razão da desastrada e malfadada política de saúde mental em nosso país, muitos desses pacientes que precisam de internação não a conseguem em razão da insana redução de leitos psiquiátricos no Brasil. Em havendo a real e inequívoca necessidade da internação psiquiátrica involuntária, o Laudo Médico Circunstanciado é indispensável.

Quando o paciente ainda não incorreu em transgressão da lei, e ainda não causou dano a si próprio ou a terceiros, mas o potencial para tal é evidente, o Psiquiatra pode buscar manejar a situação sem a necessidade da internação involuntária. Embora isto nem sempre seja possível. Há que se detectar os momentos de acalmia da doença (se os houver) e agir principalmente nesses momentos, frequentemente com uso de medicação injetável. Aqui a técnica e a avaliação médica precisa ser bastante precisa e adequada. As abordagens terapêuticas em momentos de surtos da doença são mais complexas e há que se observar, cuidadosamente, o que diz a Lei Federal 10.216 de 2001 a fim de que não se violem os direitos do paciente.

Um Exemplo de um Paciente de dificílimo manejo que tratei

Tratava-se de um indivíduo com cerca de 30 anos, de compleição física avantajada, muito agressivo, com atitude reivindicatória, arrogante e querelante na maior parte do tempo, e que foi trazido aos meus cuidados com muita dificuldade. Não havia notícia por parte de quem o trouxe de que já tivesse posto em risco nem a si próprio e nem a terceiros, mas sua atitude para comigo era agressiva, desafiadora e ameaçadora. Sua percepção da realidade estava bastante comprometida e suas palavras eram francamente assustadoras. Batia e socava a mesa do consultório quase o tempo todo e falava esbravejando. Não cooperava em absolutamente nada, mesmo estando visível e seriamente adoecido. Muito pouco pôde ser feito na primeira consulta. Já na segunda vez quando o atendi, o paciente permanecia agressivo, porém seu nível de percepção da realidade estava melhorado, e não estava em surto. Foi nesse momento que agi, administrei-lhe (com seu consentimento) a medicação indicada. Em uma semana, a melhora já era dramática. O mesmo passou a me agradecer e a internação nunca chegou a ser necessária.

Isto digo para lhe trazer esperanças, além de informações. Mas reconheço que a situação que você relata parece não poder excluir a possibilidade de internação psiquiátrica.

Outras Situações

A fim de não me alongar, afirmo-lhe que já tratei de situações bastante sérias, e uma das soluções encontradas foi planejar uma estratégia de tratamento juntamente com a família, e que incluiu várias visitas que tive de fazer ao domicílio de alguns desses pacientes. Por vezes não há muito o que se possa efetivamente realizar em termos de tratamento na primeira ou na segunda visita. Mas com persistência técnica, pode-se conseguir alcançar um momento oportuno e propício para o início da intervenção com a medicação indicada. E uma vez iniciado o tratamento, é muito importante não “dar brechas” para que a doença volte a começar a se manifestar. Caso contrário, pode-se ter que começar tudo de novo, do zero.

É o que posso lhe responder.

 

        Médico Psiquiatra e Nutrólogo

 

 

 

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