Transtorno Bipolar sem Melhora Há Sete Anos
Boa noite Dr. Eduardo, meu nome é (...),
sou de (...), SC, meu pai tem disturbio bipolar, mais ate hoje nenhum
médico deu geito de fazer um tratamento adquado a ele, pois ele está
cada vez pior, teve um médico de Rio do Sul, que disse que não sabia
mais o que fazer, faz 7 anos que descobrimos essa doença nele, ele mudou
muito. Ele fica o dia inteiro sentado, ele fica falando que tem ferros
na boca, que tem alicate, ele sempre fica mexendo com a boca, diz que
está tentando tirar os ferros da boca. Gostaria muito de sua ajuda, isso
pode se dizer que é um filho desesperado sem saber o q fazer com seu
pai, só queria o meu pai de volta. Se for preciso levo ele até Curitiba
para se consultar com o Dr. Desde já agradeço pela atenção!
Atenciosamente (...) (Santa Catarina)
Prezado amigo, o sofrimento de ver um familiar querido em estado de doença é algo terrível e é até mesmo difícil de ser expresso em palavras. Por isso mesmo Deus colocou médicos no mundo, a fim de que ajudemos os nossos semelhantes pela ciência que recebemos.
Importante, todavia, ser dito que hoje existem mais de cinquenta
especialidades médicas reconhecidas pelo Conselho Federal de
Medicina. Sendo assim, é importante que todos nós médicos,
juntamente com os nossos pacientes e seus familiares, saibamos
compreender quando é a hora certa de se buscar um especialista,
quando for o caso, evidentemente.
Isto digo porque conheço a região onde você mora, e sei que não são
muitos os colegas psiquiatras nesses municípios dessa sua região
específica do Vale do
Itajaí. Sua região pertence à AMAVI (Associação dos Municípios do
Alto Vale do Itajaí), e congrega 28 municípios, entre eles o seu.
Destes 28 municípios, segundo dados da Associação Brasileira de
Psiquiatria, da qual sou membro filiado, apenas um deles, Rio do
Sul, conta com três psiquiatras inscritos na Associação Brasileira
de Psiquiatria e portadores de Título de Especialista em Psiquiatria
(só se pode anunciar a especialidade médica sendo portador do
Título). Os demais 27 municípios (Agrolândia, Agronômica, Atalanta,
Aurora, Braço do Trombudo, Chapadão do Lageado, Dona Emma, Ibirama,
Imbuia, Ituporanga, José Boiteux, Laurentino, Lontras, Mirim Doce,
Petrolândia, Pouso Redondo, Presidente Getúlio, Presidente Nereu,
Rio do Campo, Rio do Oeste, Salete, Santa Terezinha, Taió, Trombudo
Central, Vidal Ramos, Vitor Meireles, e Witmarsum não possuem
psiquiatras titulados e inscritos na Associação Brasileira de
Psiquiatria (ABP), segundo, como já dito, em conformidade com os
dados disponibilizados pela ABP. Embora você não tenha mencionado se
seu pai vem sendo tratado por um médico psiquiatra ou por um colega
que não seja da nossa especialidade.
De qualquer forma, chama a atenção o fato de você ter escrito que
seu pai recebeu um diagnóstico psiquiátrico há sete anos e “até hoje
nenhum médico deu jeito”, segundo suas próprias palavras, e ainda
acrescenta “está cada vez pior”.
Tenho dito, e aqui reafirmo, que a maioria dos pacientes que me
procura dizendo ser portadores do Transtorno do Humor Bipolar, na
realidade não são. Ou são portadores de transtornos psiquiátricos
bem menos severos, ou simplesmente não têm doença psiquiátrica
nenhuma, ou ainda, e o que é pior, são portadores de algum
transtorno psiquiátrico ainda mais sério. Esta última situação é a
mais rara dentre as outras que mencionei, felizmente. E há,
obviamente, os que são, de fato, pacientes bipolares.
Também penso ser algo muito frustrante ouvir de um médico a sentença “não sei mais o que fazer”, segundo você escreveu.
Um dos lemas áureos da Medicina é: “Curar, se possível, mas
aliviar, sempre!”
Em se tratando de doenças terminais, ou ainda de outras situações
muito graves, onde as expectativas de melhora e/ou cura são muito
mais restritas, há casos em que o médico precisa fazer saber ao
paciente a aos seus familiares sobre a realidade da sua condição de
saúde. Mas quando a melhora ou a cura ainda estão ao alcance da
Medicina, os recursos de que hoje dispomos são imensos e devem ser
otimizados o mais possível a fim de que o paciente receba o melhor.
E isto em qualquer situação. Mas tudo fica muito mais difícil
se um diagnóstico de certeza não tiver sido firmado. É como ir a um
ourives e perguntar ao profissional se determinada peça é ou não de
ouro. Ora, se após diversos retornos ao tal ourives, este ainda não
souber se a peça é de ouro ou não, o que fazer senão procurar outro
especialista em jóias? São sete anos de sofrimento, segundo o seu
relato.
Quanto ao mérito do médico que disse não saber mais o que fazer em
relação ao seu pai, não é de minha competência emitir juízo algum
sobre o colega, mas se ele não sabe mais o que fazer, será que nesse
nosso imenso país não existem outros médicos que saberão o que
fazer?
Digo ainda que existe um abuso do diagnóstico de Transtorno Bipolar,
sendo este último uma patologia já bem conhecida e bem estudada, e
com tratamentos bastante eficazes para a maioria dos casos. Por isso
chama a atenção esse longo período sem melhora, e até com piora,
segundo você escreve. Sua afirmação de que seu pai diz que tem
ferros na boca e que ainda movimenta a boca a fim de remover o que
parece perceber como sendo ferros e alicates sugere que seu pai seja
portador de um transtorno psiquiátrico sério e que precisa ser
diagnosticado e tratado corretamente. Há diversas doenças que podem
ser até mesmo parecidas com o Transtorno Bipolar em alguns de seus
aspectos de manifestações clínicas, mas também existe um abismo de
diferenças entre essas doenças, cabendo ao psiquiatra saber fazer
essa diferenciação.
Sua região é uma das mais belas do sul do Brasil, com uma vegetação
rica e de um verde vivo, próspera na agricultura, um povo muito educado
e cordial, cidades aconchegantes e com um clima agradável. Mas,
infelizmente, pobre em número de psiquiatras.
Gostaria de poder ajudá-lo mais, ao seu pai principalmente,
evidentemente, mas é tudo o que posso comentar a respeito, por hora.

Médico Psiquiatra
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