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Ritual de Lavar as Mãos no TOC

Olá Doutor...Meu nome e (...) e a algum tempo venho tendo algums sintomas diferentes no meu comportamento. Toda vez que estou em algum lugar fora da minha casa tenho a sensaçao de que tudo o que esta ao meu redor esta contaminado e sujo. Eu lavo minhas maos o tempo todo. Quando estou andando na rua muitas veses tenho a sensaçao de que a qualquer momento algum carro vai me atropelar. Estou tendo bastante desentendimento com meu marido pois limpo minha casa o tempo todo e parece que ela nunca esta limpa. Peço pro meu filho lavar as maos o tempo todo tambem parece que todo o momento ele esta se contaminando com alguma coisa. Minha pergunta e: Isso pode ser algum sinal de toque? Desde ja agradeço pela sua atençao. Abraços... (Paraná)

 

Já fiz esta afirmação em outros artigos que escrevi e também em respostas a perguntas que me são encaminhadas: Dentre as diversas doenças em Psiquiatria, o Transtorno Obsessivo Compulsivo é uma das doenças psiquiátricas mais cruéis para com os doentes.  Tenho visto muito sofrimento causado pelos transtornos psiquiátricos os mais diversos, porém, e lamentavelmente, o TOC ocupa uma posição de destaque no angustiante território dos transtornos mentais que mais fazem sofrer.


A mensagem acima faz referência ao ritual de lavar as mãos, algo muito frequente entre portadores de TOC. E sobre isto falaremos a seguir.


Os Rituais do Transtorno Obsessivo Compulsivo


Há, basicamente, três principais expressões da Doença Obsessivo Compulsiva, quais sejam: os pensamentos obsessivos, os rituais compulsivos e as formas mistas, as quais são as mais frequentes. Nesta última situação, há diversos casos onde o tormento psíquico se dá não só pela presença de pensamentos intrusivos, desconfortabilíssimos, por vezes incluindo idéias de profanação religiosa, obscenidades, ideação de morte, pensamentos de destruição, medo de doenças, dentre outros, mesclados com um terrível e irresistível desejo de realizar algum tipo de ritual a fim de “acalmar” esses pensamentos. A pessoa verifica se fechou a porta cinco, dez, cem vezes, volta à casa depois de já estar na rua para “se certificar” de que fechou o gás, que desligou a luz, se entra em algum lugar com um pé “fora de posição” retorna, entra outra vez, não fica convencida de que a posição de entrada foi a correta, disfarça e torna a entrar, surgem pensamentos de que se não lavar as mãos “do modo correto”, ou “suficientemente”, algum germe certamente lhe causará uma doença, essa doença, quem sabe, poderá atingir seus filhos, sua mãe poderá morrer, enfim, é algo terrivelmente angustiante e que, de modo nenhum, obedece à lógica.


Há casos que tenho atendido onde esse tormento já é algo presente na vida da pessoa desde a infância, passa pela adolescência, compromete dramaticamente a qualidade de vida do indivíduo e não são poucas as situações onde o tratamento é iniciado de modo francamente tardio. Há ainda casos onde o TOC se arrasta pela vida adulta, podendo mesmo chegar à velhice em plena atividade. E isto se não houver tratamento, evidentemente.


A boa notícia é que há um poderoso arsenal de tratamentos disponibilizados pela Psiquiatria para o tratamento dom TOC, muitos deles, diga-se, com resultados espetaculares. Há também casos onde o tratamento pode ser mais demorado e há ainda os casos onde sequelas podem permanecer para o resto da vida, sendo que, pelo menos em minha experiência profissional, posso afirmar que ainda que permaneçam sequelas, este estado é incomparavelmente menos angustiante do que o estado anterior da doença sem tratamento.


O problema todo reside na correta avaliação do paciente e no modo como a doença é abordada. Também é necessário um comprometimento bastante disciplinado do paciente a fim de que ambos, médico e paciente, juntos, vençam a guerra contra o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Trata-se de uma doença psiquiátrica repleta de “truques” inerentes e altamente dependente de respostas conscientes por parte do paciente. Quando alguém sofre de uma Pneumonia, por exemplo, basta que se tome a medicação corretamente, que se sigam as recomendações médicas aplicáveis e lá se vai, graças a Deus, embora a Pneumonia. Com o TOC, todavia, não é tão simples assim. Isto digo pois estou convencido (e minha prática clínica corrobora minhas observações) de que abordar o TOC simplesmente indicando a medicação x ou o remédio y pode, em muitas das vezes, ser uma abordagem com uma como que garantia prévia do fracasso de tratamento, e isto em diversas situações. E há razões para isto.


Há estudos sobre o Transtorno Obsessivo Compulsivo de excelente qualidade, muito bem conduzidos, porém vários desses estudos são conflitantes entre si. Estou me referindo a estudos que afirmam não estar comprovado que conflitos íntimos, conflitos de ordem moral e até mesmo religiosa possam estar por trás da Doença Obsessivo Compulsiva. O que tenho visto e observado é justamente o oposto disto. Os piores, ou melhor dizendo, mais graves casos de TOC que tenho tratado possuem amplos e incisivos componentes de ordem moral e religiosa.


Existe hoje uma corrente de pensamento contaminando a Psiquiatria, a qual assevera que não passamos de um monte de células, de um emaranhado complexo de terminações nervosas e tudo isso regulado por hormônios e neurotransmissores, os quais obedecem ao que dita “a genética” do indivíduo. Em outras palavras, para eles somos uma máquina que evoluiu muito bem, porém não existe alma, tudo o que somos é “físico”. E, continuam eles, é assim “porque não foi provado”. Agora, indago eu: como visualizar a alma humana e seus conflitos? Será possível radiografar o espírito humano, dosar a angústia em laboratório, isolar o medo em tubos de ensaio ou ainda submeter a insegurança a algum aparelho de medição? Não! Isto não é possível e jamais será, pois este é um território que se encontra inserido nas dimensões não físicas da existência. E, dente outras coisas, estamos nos referindo à consciência moral inerente à criatura humana.


Há pessoas acometidas pelo TOC as quais respondem de modo muito intenso aos confrontos com suas próprias consciências. Quase que um exemplo clássico é aquele do indivíduo que sendo casado, mas envolvido em casos extraconjugais, manifesta o conflito com sua consciência através de rituais de verificação, de processos de somatização (onde pruridos e falta de ar sem doença aparente são frequentes), iniciam quadros de tiques, experimentam prejuízos da concentração, enfim, tudo relacionado a uma não aceitação inconsciente (por vezes plenamente consciente) da situação que está vivenciando e que se encontra em franca discordância e em oposição à sua consciência.


Evidentemente que nem todo caso de TOC está relacionado a conflitos dessa natureza. Todavia, deixar de investigá-los, de modo apropriado e fundamentado em ciência verdadeira, é algo que nos parece deixar muito a desejar. O TOC por vezes é como que um espinho atormentador porém não visível, ou seja, há que se procurar, cautelosamente, a localização do espinho a fim de que possa ser extraído.
Enfim, abordar o TOC sem atentar para os conflitos internos atuantes no paciente, quando eles existem, é como realizar um minucioso exame médico, porém “esquecendo-se” de auscultar o coração.

A você que me escreveu, sim. Seu relato sugere, fortemente, a presença de um Transtorno Obsessivo Compulsivo em plena atividade. Porém, anime-se! Há, como já dito, excelentes opções de tratamento disponibilizadas pela Psiquiatria. O TOC pode ser tratado com medicação, com psicoterapia e ainda com uma combinação bem planejada de ambas. Todavia, a investigação psiquiátrica requer minúcias e uma acurácia toda especial e específica. Também convém que no caso da psicoterapia, esta seja voltada especificamente para o TOC. Deste modo as probabilidades de sucesso terapêutico muito se ampliam. No caso do TOC, tanto a escolha da medicação como da psicoterapia necessitam de um alto grau de especificidade.

 

 

Dr Eduardo Adnet

Médico Psiquiatra e Nutrólogo

 

 

 

 

 

 

 

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