Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

As Depressões e a chamada Depressão Pós-Parto


Há autores que não concordam com um simples diagnóstico chamado de Depressão. Alegam que devido às suas múltiplas e polifacetadas apresentações clínicas, o melhor seria falar-se em Depressões. Concordo plenamente. Todavia, enfatize-se, as Depressões não são doenças exclusivas de mulheres. Lamentavelmente, a prevalência das Depressões aumenta, a cada dia que passa, não somente entre homens e mulheres, mas também entre crianças, adolescentes e adultos jovens.

Na verdade, firmar um diagnóstico de transtorno depressivo não é algo tão simples como se possa pensar. Somente após todo um trabalho propedêutico e semiótico, especialmente no que diz respeito à Psiquiatria, é que poderemos visualizar todas as características dos sinais e dos sintomas que nos poderão conduzir ao estabelecimento de um diagnóstico de transtorno depressivo, se for o caso.

Para o leitor que não é psiquiatra o que mais interessa é entender como se instalam estes quadros psicopatológicos a que médicos e psicólogos chamam de depressão ou de transtorno depressivo, ou ainda de transtornos depressivos.

O transtorno depressivo pode envolver desequilíbrios de importantes mecanismos fisiológicos cerebrais, dos quais participam hormônios e neurotransmissores cerebrais. Todavia, o transtorno depressivo não é uma doença exclusivamente física, como alguns autores parecem procurar afirmar. Pode, sim, envolver um importante mecanismo de desequilíbrio químico cerebral e corporal, mas os componentes não físicos envolvidos na etiopatogenia (a causa da doença) dos transtornos depressivos são uma realidade incontestável. Fatores hereditários estão sendo melhor compreendidos e também sendo cada vez mais associados aos transtornos depressivos por meio de estudos e de pesquisas cada vez mais numerosas e surpreendentemente esclarecedoras.

Poder-se-ia mesmo afirmar, com algum grau de prejuízo para a linguagem técnica e específica da psiquiatria, porém elucidativo para o leitor que não é psiquiatra, que a depressão é o pólo oposto da euforia (ou mania). Nos estados de euforia, a pessoa sente um grande ânimo, uma potente disposição, o pensamento tende a ficar acelerado e o comportamento inquieto. Já nos estados depressivos ocorre o oposto. A pessoa se sente desanimada, desesperançosa, seu pensamento e comportamento estão, de modo geral, lentificados. Há casos em que a depressão pode ser tão severa que a pessoa já não mais deseja sair de casa, falar com os familiares, perde o interesse pelo trabalho e chega até a invejar os que já morreram. Estamos falando de casos mais extremos, ou seja, de depressões moderadas a graves.

Nos casos mais clássicos de depressão alguns sinais e sintomas estão quase sempre presentes. Porém, antes de falarmos sobre eles, o que ajudará a entender ainda melhor esta doença, citarei um caso de uma paciente que acompanhei, um caso que ilustra bem o que foi dito acima.

Uma mulher de 40 anos, de bom nível sócio-econômico, de bela aparência e que ocupava um cargo público importante, me procurou no consultório relatando que era portadora de depressão havia mais de quinze anos. Sua infância havia sido muito traumatizante, pois quando ainda criança assistia a brigas e discussões violentas entre seus pais. Não podia manifestar qualquer expressão diante do que via, pois o pai lhe ameaçava com punições físicas caso se intrometesse nas brigas do casal. Não podia falar e nem chorar. Seu pai era um homem muito agressivo e violento e a paciente cresceu nesse ambiente perturbado.

Os anos se passaram e ela se casou com um homem a quem amava e que acreditava que também a amasse da mesma forma.
Logo após o nascimento de seu primeiro filho, disse-me que experimentou o primeiro episódio de depressão em sua vida. Era uma depressão pós-parto, segundo ela afirmava. Relatou que dormia mal, tinha crises de choro, medos e receios, razão pela qual temia que seu bebê acordasse necessitando de algum cuidado materno, pois julgava que não seria capaz de cuidar da criança nos momentos em que se sentia deprimida. Experimentava uma grande ansiedade e expectativa todas as noites, temendo que a criança acordasse, pois os piores momentos de sua depressão ocorriam à noite.

Procurou ajuda psiquiátrica e foi submetida a diversos tratamentos diferentes e experimentou uma melhora moderada do seu quadro clínico no âmbito geral. Para ela, a melhora era evidente pois, segundo afirmava, não sentia mais os mesmos temores à noite quando o segundo filho dormia.

Porém, pouco tempo depois, passou a sentir-se novamente muito deprimida, mas seguia com suas atividades familiares e profissionais de modo normal. Até que descobriu que seu marido tinha uma vida dupla e que se encontrava, às escondidas, com outra mulher. E segundo a paciente relatou, a traição conjugal já estava ocorrendo havia muito tempo, mas nunca tinha desconfiado de seu marido, julgando que tal situação jamais ocorreria em sua vida.

Mais algum tempo se passou e um câncer de mama foi diagnosticado e ela teve de ser submetida a uma mastectomia radical (retirada de toda a mama).
Relatou que, por essa época, passou a experimentar os piores períodos depressivos de sua vida, devido à separação do marido e também devido à doença da mama, fatores agravantes e também desencadeantes de suas crises depressivas.
Passou dezoito anos em tratamentos psiquiátricos e seus médicos mudaram sua medicação dezenas de vezes.

No primeiro dia em que me procurou, ela estava profundamente deprimida e abatida, chorando incontrolavelmente, desanimada, triste, não sorria e dizia estar pensando em suicídio.
Relatou ainda que sua filha, uma adolescente de dezesseis anos, estava experimentando os mesmos sintomas depressivos que ela apresentava, incluindo idéias suicidas.
Após um breve período de tratamento, com psicofármacos e psicoterapia, passou a experimentou uma melhora progressiva e crescente. Os resultados do tratamento foram excelentes.

A história desta senhora chama a atenção devido à ocorrência de uma sucessão de momentos trágicos e infelizes em sua vida: Perda do marido, uma grave doença, uma infância traumatizante e a infidelidade conjugal. Porém, a despeito de tudo isso, sua história de vida não é o suficiente para atestar que, a despeito de tanto sofrimento, ela obrigatoriamente teria de desenvolver um Transtorno Depressivo. A observação nos mostra que muitas outras pessoas que experimentaram semelhantes sofrimentos, ou ainda piores, não desenvolveram a Depressão.

O que a história dessa paciente claramente revela é uma predisposição familiar hereditária para o desenvolvimento, ou para o desencadeamento, de uma doença depressiva. Seu relato sobre o estranho comportamento do pai pôde também levantar sérias suspeitas de que aquele senhor sofria de um transtorno psiquiátrico. A filha que desenvolveu um quadro depressivo à semelhança da mãe e o relato da Depressão Pós-Parto experimentada pela paciente mostram que a mesma era uma paciente não somente suscetível, porém já portadora de um transtorno depressivo mesmo antes da sequência mais grave de acontecimentos infelizes que a vitimaram e à sua família.

Segundo alguns autores, a depressão pós-parto nada mais seria do que o transtorno depressivo se manifestando de modo mais notável no período do pós-parto. O episódio do parto não seria, por si só, o causador da depressão, mas apenas um gatilho desencadeante de um transtorno depressivo pré-existente ou latente. Na realidade não há, pelo menos por enquanto, um consenso entre autores a este respeito. Porém, em minha experiência clínica tenho observado serem muito mais frequentes os casos de pacientes portadoras de depressão previamente diagnosticada e que experimentam uma piora ou exacerbação do quadro no período do pós-parto do que pacientes sem depressão prévia desenvolverem a chamada depressão pós-parto.

Há, como sabemos, manifestações muito específicas no período pós-parto e que podem evoluir com episódios depressivos, porém isto não é o suficiente para que se afirme de modo alardeado que a depressão pós-parto seja uma entidade psicopatológica isolada e simples de ser diagnosticada. As sucessões de eventos pregressos e atuais convém sejam, cuidadosamente, levantadas e avaliadas.

Sinais e Sintomas mais Frequentes da Depressão

Um modo bem objetivo de listarmos aqui alguns sinais e sintomas da Depressão é utilizando os critérios diagnósticos do DSM, o Manual de Diagnóstico e Estatísticas de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, ou da CID, a Classificação Internacional de Doenças. Para os objetivos deste artigo, penso ser mais prático utilizar os critérios da CID 10.

"Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da autoconfiança e frequentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos "somáticos", por exemplo, perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora importante, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar três graus de um episódio depressivo: leve, moderado e grave." CID 10, Classificação Internacional de Doenças/Centro Colaborador da OMS para a Classificação de Doenças em Português.

Embora tanto o DSM quanto a CID tenham dado um importantíssimo auxílio à ciência psiquiátrica ao publicar classificações resultantes de muitos anos de observações, de estudos, pesquisas e catalogações, ambas as obras não fornecem informações suficientes para que se possa entender a psicopatogênese (origem) de todos os diversos transtornos depressivos, e nem mesmo é este o objetivo do DSM ou da CID. Para esta finalidade contamos com um significativo número de estudos que procuram caracterizar e pesquisar a gênese desta categoria de transtorno mental. A chave para esta compreensão é a Psicopatologia.

Abaixo uma lista, para efeitos didáticos, de sinais e de sintomas associados à Depressão. A pessoa que sofre de Depressão poderá apresentar mais de uma das características descritas abaixo:

- Sensação de cansaço o tempo todo, mesmo quando não estiver trabalhado ou se exercitado muito.

- Sensação de cansaço tanto nos dias em que tiver repousado bem como nos dias em que tiver trabalhado horas o bastante.

- Sono afetado em uma de duas maneiras. Ou a pessoa irá se deitar e acordará durante a noite e permanecer acordada ou dormirá demais, mesmo durante o dia. Seu sono não é um sono repousante.

- Irritabilidade constante.

- A pessoa fica aborrecida muito facilmente, mesmo por causa de pequenas coisas as quais normalmente não a aborreceriam.

- Sentimentos de grande tristeza sem nenhum motivo, e crises de choro sem entender o porquê.

- Diminuição no desejo sexual ou simplesmente não sentir desejo sexual algum.

- Dores de cabeça que podem estar presentes na maior parte do tempo.

- Dores em diversas partes do corpo, não infrequentemente recorrentes.

- Dificuldade para apreciar as coisas.

- Pouco entusiasmo mesmo com coisas que antes lhe devam prazer.

- Constipação ou outros sintomas digestivos, como dores abdominais ou diarréia.

- Perda ou ganho de peso.

- Pruridos pelo corpo

-Queda de cabelos

-Infecções de repetição

- Falta de energia ou interesse pela vida.

- Dificuldade de concentração, de tomar decisões, lembrar de coisas e terminar as coisas.

- Sensação de ineficiência, de falta de utilidade, mesmo sem uma razão aparente para se sentir desta maneira.

O diagnóstico bem feito, atenção ao que o paciente relata, bons conhecimentos em psicopatologia, domínio da psicofarmacoterapia (o tratamento com medicamentos) e, sobretudo, uma generosa dose de carinho podem fazer toda a diferença na hora de se estabelecer o tratamento para um transtorno depressivo, o que penso, deva ficar, preferencialmente, por conta de especialistas.

Dr Eduardo Adnet
Médico Psiquiatra e Nutrólogo