Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

A História da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial e o seu Doloroso Fracasso a Nível Global

 


"Cerca de um terço da população de rua e pelo menos dez por cento da população carcerária é constituída de doentes mentais". (E. Fuller Torrey, Psychiatrist: How America's Failure to Treat the Seriously Mentally Ill Endangers Its Citizens. Cathleen Cerny, MD; American Academy of Psychiatry and the Law).

“A redução de leitos psiquiátricos em hospitais públicos aumentou o risco de suicídio em pelo menos 81 suicídios por ano estatisticamente atribuíveis.” (Tim-Allen Bruckner, Ph.D; Jangho Yoon, Ph.D; Richard Scheffler; University of California, Berkeley, Deinstitutionalization and Suicide in the United States. National Institute of Mental Health).

Reforma Psiquiátrica – Breve Histórico e Observações

Embora estejamos no Brasil, não é de modo algum possível entender o que está se passando no território da saúde mental nesta nação a não ser que se conheça um mínimo da história recente do que ocorreu (e que continua ocorrendo) com a saúde mental nos Estados Unidos da América e também em alguns países europeus. Por ora, o que se pode dizer é que a "reforma psiquiátrica" no Brasil é uma cópia literal de modelos de outras nações. E é o que pretendemos mostrar a seguir. Iniciaremos com um breve histórico do que ocorreu nos EUA uma vez que não infrequentemente é daquela nação que se “criam” os modelos brasileiros. Ressaltando, todavia, que toda a concepção e orientação ideológica dos atuais modelos políticos de abordagem em saúde mental se encontram estreitamente vinculados a uma relação de dupla via entre os EUA e a Organização Mundial de Saúde (OMS), órgão subordinado às Nações Unidas (ONU).

Breve Histórico Norte-Americano

Em 19 de fevereiro de 1909, o Comitê Nacional de Higiene Mental dos Estados Unidos foi inaugurado por Clifford Beers, graduado da Universidade de Yale, e que não coincidentemente tinha experimentado sérios problemas mentais ele próprio, assim como também teve de passar por hospitalização. Com o auxílio de William James, Adolf Meyers, e outros, a organização foi formada.

Os seus objetivos eram servir como um "fator de higienização" para a nação no que dizia respeito ao tema da saúde mental, a prevenção de transtornos mentais, além de cuidados e tratamento para os doentes mentais" (Torrey, 1988). A essa altura, Clifford Beers se encontrava mais interessado nas reformas em hospitais do que em prevenção, mas acabou por ser persuadido a adotar a então atual e popular tendência em direção à perspectiva freudiana.

Freud acreditava que a vida das pessoas era dominada não por uma mente plenamente consciente, mas sim pelas forças do inconsciente. Freud também acreditava que motivações sexuais inconscientes seriam o cerne da doença mental (Lahey, 1992). Através da teoria sobre a "falta de expressão da motivação sexual", ele involuntariamente encorajou a crença de que a prevenção da doença mental era possível, e este fato precipitou uma concentração de esforços não em tratamentos, mas em prevenção como sendo a questão primordial.

Em 1945, havia 3.000 psiquiatras trabalhando nos Estados Unidos e 53% trabalhavam no setor público (Torrey, 1988). A saúde mental era ainda uma preocupação crescente, e em 3 de julho de 1946, o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) foi formado.

Daí para frente, houve grandes avanços farmacológicos para o tratamento de transtornos mentais severos com a introdução dos antipsicóticos. Em maio de 1954, a Clorpromazina (Thorazine) chegou ao mercado e no curto prazo de oito meses, foi administrada a mais de dois milhões de pacientes (Isaac & Armat, 1990). A Clorpromazina foi descoberta na França por Henri Laborit e foi inicialmente desenvolvida e sintetizada na busca por um melhor anti-histamínico. A Reserpina (Raudixin) foi desenvolvida nos Estados Unidos pela Ciba Pharmaceuticals (Isaac & Armat, 1990). Atualmente, a Reserpina é raramente utilizada para o tratamento da hipertensão. Ambas as drogas foram saudadas como tratamento eficaz no controle dos sintomas de transtornos psicóticos (Torrey, 1988).

A Comissão Mista para Doenças Mentais e Saúde

A lei do Estudo sobre Saúde Mental de 1955 foi introduzida na legislação norte-americana em 28 de julho de 1955, o que resultou na nomeação pelo Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) da Comissão Mista para Doenças Mentais e Saúde com a finalidade de "avaliar as necessidades dos doentes mentais e apresentar recomendações ao Congresso para futuros programas."

A Comissão Mista para Doenças Mentais e Saúde definiu como saúde mental positiva: "as atitudes do indivíduo para consigo próprio; o grau com que o indivíduo percebe suas potencialidades através de ações; unificação da função na personalidade do indivíduo; o grau de independência de influências sociais; como o indivíduo vê o mundo ao seu redor; e a capacidade do indivíduo para aceitar a vida como ela é e saber administrá-la" (Torrey, 1988).

A Comissão Mista realizou um estudo de seis anos intitulado Ação para a Saúde Mental (Isaac & Armat, 1990). O relatório, divulgado em 1961, recomendava o aumento do número de hospitais existentes ; estabelecer limites no número de internações hospitalares quando o limite máximo já houvesse sido atingido, com uma capacidade máxima de mil indivíduos por unidade hospitalar, maior utilização de enfermarias psiquiátricas; e conversão dos hospitais do governo em centros para "cuidados combinados a longo prazo para todas as doenças crônicas, incluindo as doenças mentais" (Isaac & Armat, 1990). Igualmente recomendou a criação de centros comunitários de tratamento, se possível uma clínica para cada área com cinquenta mil pessoas. No entanto, salientou que o mais importante era "que o conceito de prevenção era apenas um sonho, uma quimera." (Isaac & Armat, 1990).

John F. Kennedy era o então presidente dos EUA e estava pessoalmente interessado em adotar essa legislação sobre saúde mental, porque sua irmã Rosemary sofria de Retardo Mental, embora este fato não tenha sido reconhecido na época, principalmente devido ao estigma. Kennedy nomeou uma comissão para rever a "Ação para a Saúde Mental" e a maioria das recomendações foram ignoradas, exceto no que dizia respeito à criação de centros comunitários de tratamento.

Kennedy, equivocadamente, acreditava que a prevenção primária e a redução dos hospitais do Estado poderia ser alcançada através de centros comunitários de tratamento voltados para a atenção em saúde mental. Em seu discurso The Dream (O Sonho), Kennedy afirmava: "Aqui mais do que em qualquer outra área, um grama de prevenção vale mais do que um quilo de cura. Pois a prevenção é muito mais desejável para todos os interessados. É muito mais econômico e tem mais probabilidades de ser bem sucedida". Kennedy fomentou a crença de que o principal problema era a existência de cuidados de saúde mental em regime hospitalar, e não a doença mental em si. (Isaac & Armat, 1990).

Kennedy prometeu: "Se lançarmos um novo programa de saúde mental agora, será possível dentro de uma década ou duas reduzir o número de pacientes em tratamento em regime de internação em 50% ou mais." Kennedy também prometeu que a "confiança na misericórdia fria do isolamento sob custódia hospitalar seria suplantada pelo amplo calor da preocupação da comunidade" (Isaac & Armat, 1990).
 


O Início do Fim

Assim nascia a Lei dos Centros Comunitários de Saúde Mental (CMHC Act). Uma vez que havia pouca, se não nenhuma, evidência científica de que a prevenção seria uma meta alcançável, o Congresso norte-americano concentrou-se na meta de redução das populações hospitalares de doentes mentais. Infelizmente, ninguém pensou sequer em perguntar, para onde irão todos esses pacientes após a alta hospitalar? Chega a ser absolutamente espantoso quando se considera que naquela altura não havia nenhum programa do governo para financiar o regresso dos doentes mentais com alta hospitalar, e também não houve quem indagasse o seguinte: Para onde irão eles?

No final de outubro de 1963, John F. Kennedy assinou a legislação para a criação dos Centros Comunitários de Saúde Mental (Community Mental Health Centers – CMHC). Começava assim, oficialmente, a desinstitucionalização, a chamada reforma psiquiátrica ou luta antimanicomial.

Em maio de 1964, o Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA (NIMH) instituiu as diretrizes para os serviços essenciais que seriam fornecidos pelos Centros Comunitários de Saúde Mental (CCSM). Surpreendentemente, nenhuma das orientações da nova lei incluía ou determinava uma coordenação de serviços ou sequer a comunicação entre um hospital e os CCSM. Os resultados se provaram catastróficos, uma vez que os CCSM não eram sequer informados sobre os pacientes que recebiam alta dos hospitais. Os pacientes despejados dos hospitais necessitavam de cuidados, pelo menos a fim de que recebessem medicação e aconselhamento com vistas à reabilitação, o que incluiria os recursos comunitários. Também os pacientes com potencial necessidade de tratamento em regime de internação hospitalar não eram encaminhados para os CCSM (Torrey, 1988).

Alguns argumentaram que a verdadeira força por detrás da desinstitucionalização estava relacionada ao assunto das verbas federais, pois em 1965 o governo incentivou o processo de desinstitucionalização, introduzindo vários programas, principalmente o Medicaid e Medicare, que só trariam benefícios para os pacientes, todavia não nos hospitais do governo. (Isaac & Armat, 1990) .

Em suas fases iniciais (início dos anos 60), a desinstitucionalização não se configurou em um grande problema, e isto porque a primeira leva de pacientes despejados dos hospitais era composta por indivíduos consideravelmente funcionais e que haviam mantido algum grau de proximidade com as suas famílias, sendo assim, dois terços desta leva de pacientes passou a viver com a família após serem liberados dos hospitais.

Os médicos psiquiatras tinham pouco, ou mesmo nenhum, conhecimento ou compreensão dessa nova política para a saúde mental. Todos os hospitais do governo foram considerados suspeitos e mantidos sob escrutínio, e ainda sendo acusados como se fossem eles o problema em si. Já os Centros Comunitários de Saúde Mental foram rotulados como sendo a solução.

A Psiquiatria nesse período foi grandemente desconsiderada, muitos diretores e superintendentes dos hospitais do governo foram reavaliados, mas não por seu trabalho ou por seu desempenho, mas pelo número de leitos vazios que podiam produzir nos respectivos hospitais. Por esse e outros motivos, ninguém mais queria trabalhar no setor público. Entre 1970-75, o número de psiquiatras dispostos a trabalhar no setor público (incluindo os CCSM) diminuiu 50% e foram substituídos por psicólogos e assistentes sociais (Isaac & Armat, 1990).

Vários hospitais públicos começaram a ter suas vagas preenchidas por médicos estrangeiros. Novas leis de imigração tornaram menos difícil para os profissionais de outros países emigrar para os EUA, especialmente médicos. Muitos hospitais do governo iniciaram programas de residência médica porque a maioria dos médicos estrangeiros havia recebido pouca ou nenhuma formação psiquiátrica dentro do seu próprio país (Torrey, 1988).

Numerosos estudantes não eram capazes de passar nos exames para a obtenção da autorização para exercer a medicina nos EUA devido à má formação, falta de competência e também aos problemas linguísticos. Pelo menos 43 estados americanos modificaram suas leis para que eles pudessem receber a autorização para clinicar nos EUA sendo-lhes concedidas "autorizações especiais do governo" (Torrey, 1988).

Os Centros Comunitários de Saúde Mental Falham em Cumprir suas Promessas

Com as taxas de desinstitucionalização se elevando cada vez mais, a proporção de doentes portadores de doença mental grave tratados nos CCSM decresceu. Ironicamente, os CCSM estavam no mesmo barco que os hospitais do governo, os quais foram obrigados a recorrer cada vez mais aos médicos estrangeiros. (Isaac & Armat, 1990). Tornou-se evidente que o que estavam fazendo os CCSM era "atuarem em aconselhamento e intervenção nas previsíveis crises relacionadas às necessidades de sobrevivência". (Isaac & Armat, 1990).

Em 1975, relativamente poucos CCSM estavam em conformidade com os primeiros cinco serviços essenciais que haviam sido originalmente preconizados (em forma de protocolos de tratamento) pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, em maio 1964. 50% deles não possuíam leitos, e poucos ou mesmo nenhum serviço de emergência psiquiátrica. Somente 6% possuíam atendimentos-dia, e quase todos estavam pobremente supridos de pessoal (Torrey, 1988).

De fato, a maior parte do pessoal que trabalhava nos Centros Comunitários de Saúde Mental considerava difícil e onerosa a tarefa de trabalhar com os doentes mentais graves. A lei dos CCSM foi revista e passou com os mesmos cinco serviços iniciais, acrescidos de mais sete. *Os sete novos serviços eram:

1. Triagem dos pacientes antes da admissão em hospitais públicos
2. Cuidados de seguimento para os egressos de hospitais psiquiátricos
3. Desenvolvimento de instalações para a transição dos doentes mentais e fornecer serviços especializados como os a seguir listados:
4. Centros de tratamento para crianças
5. Centros de tratamento para idosos
6. Centros de tratamento para usuários de drogas
7. Centros de tratamento para abusadores do álcool (Torrey, 1988).


*Nota: Não deve ter passado despercebida a inequívoca semelhança com os Centros de Atenção Psicossocial brasileiros. Os CAPSI (que tratam adultos em municípios com populações reduzidas); os CAPSII e os CAPSIII (para cidades maiores); os CAPSAD (que tratam os pacientes com transtornos mentais relacionados ao uso de álcool e drogas); e os CAPSi (infância e adolescência).

Em 1977, o secretário do Departamento de Saúde, Educação e Bem Estar Social dos EUA estabeleceu uma Força Tarefa para a Desinstitucionalização dos Deficientes Mentais, e isto porque havia se tornado evidente para todos que os Centros Comunitários de Saúde Mental não estavam dando certo e estavam sendo utilizados apenas para aconselhamento e reabilitação (não para tratamentos psiquiátricos eficazes). ( Isaac & Armat, 1990).

*Com base neste relatório, a Força Tarefa para Programas Comunitários de Apoio (CSP) começou a ser direcionada "para uma população particularmente vulnerável - doentes psiquiátricos portadores de transtornos mentais severos e persistentes" (Torrey, 1988). O Instituto Nacional de Saúde Mental havia estabelecido a Força Tarefa para Programas Comunitários de Apoio (CSP) reconhecendo as falhas do programa dos Centros Comunitários de Saúde Mental, embora muito longe de o admitir publicamente (Isaac & Armat, 1990).

*Nota: Observe a redação do Ministério da Saúde brasileiro com relação aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS):

"Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são serviços de saúde mental abertos e comunitários do Sistema Único de Saúde – SUS destinados a prestar atenção diária a pessoas com transtornos mentais severos e persistentes. Seu objetivo é oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários." (Ministério da Saúde; Portal Saúde; CAPS)

Concluindo, mais de três décadas de políticas de desinstitucionalização resultaram em pelo menos dois relatórios de forças tarefas (um em 1985 pela Associação Psiquiátrica Americana e outro em 1992 pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA), bem como em numerosos livros e artigos abordando o problema dos doentes mentais sem abrigo. Embora diversas recomendações têm sido feitas por diversas pessoas, pouco tem sido realizado para implementar essas recomendações em larga escala. Isto pode ser devido a vários fatores, incluindo a espera para que o ideal possa ocorrer. E este ideal é definido como a aspiração por possuir um sistema de saúde mental mais compreensível, bem coordenado e abrangente e que teria a capacidade de induzir e de envolver os doentes mentais sem-abrigo a aceitarem tratamento adequado voluntariamente e medidas apropriadas de reinserção social. Mas ... já não podemos mais contar com que este sistema ideal seja, de fato, estabelecido. (Stubbs, 1998)

O problema dos doentes mentais sem-abrigo já foi capaz de gerar questões que vão dos aspectos éticos aos jurídicos, e a resposta pode residir em uma simples e direta clarificação de valores em larga escala perguntando-nos a nós mesmos o seguinte: Será possível para nós, uma nação rica e avançada se dar ao luxo de permitir que este problema persista na forma como está? (Stubbs, 1998)
 


Um Fracasso a Nível Global

A Reforma Psiquiátrica Brasileira não tem nada de Brasileira

Por razões técnicas e também éticas, rejeitamos o conceito de “reforma psiquiátrica” para o que está acontecendo no âmbito da saúde mental no Brasil. Embora propagada a som de trompetes, a chamada “Luta Antimanicomial” (as evidentes semelhanças com a Força Tarefa para a Desinstitucionalização norte-americana não são mera coincidência), com seus resultados deixando muitíssimo a desejar, ao contrário do que muitos pensam (a propaganda governamental chega a ser histérica ao anunciá-la), não tem um pingo sequer de originalidade verde e amarela. A desinstitucionalização psiquiátrica, definida como “a contração dos setores institucionais tradicionais, com a concorrente expansão dos serviços comunitários de tratamento” (Bachrach, 1976), já tem sido implementada em diversos países desde meados do século passado.

Atualmente, a desinstitucionalização vem acontecendo nos EUA e Europa fortemente estimulada pela Organização Mundial de Saúde (órgão vinculado às Nações Unidas).

No Brasil, todavia e para piorar, este tipo de mudança na atenção em saúde mental tem sido realizada com os mesmos desastrosos modos de administração com os quais o atual governo brasileiro vem administrando o Sistema Único de Saúde - SUS. O Brasil encontra-se hoje entre os países com os piores desempenhos de seus serviços públicos de saúde.

“O Brasil ocupa a 125ª posição no rank internacional de bom desempenho dos sistemas públicos de saúde, e sua péssima colocação chega a ser inferior a países como El Salvador, o qual ocupa a 115ª posição. Os dez melhores colocados são, nesta ordem: França, Itália, San Marino, Andorra, Malta, Singapura, Espanha, Omar, Áustria e Japão. (World Health Organization’s Ranking of the World’s Health Systems)”.

*Nota: A Organização Mundial de Saúde (World Health Organization-WHO) não realizou a classificação de desempenho dos sistemas de saúde públicos em seu último Relatório Mundial de Saúde de 2010.

Exemplos de Equívocos no chamado Primeiro Mundo

Vejamos esta curiosa afirmação retirada do Relatório Mundial de Saúde, da OMS:

“Os sistemas de saúde mental vêm atravessando grandes reformas em muitos países, tais como a desinstitucionalização, o desenvolvimento de serviços baseados na comunidade e a integração no sistema geral de saúde. É interessante assinalar que essas reformas foram inicialmente estimuladas por fatores ideológicos, pelo desenvolvimento de novos modelos de tratamentos farmacológicos e psicoterapêuticos e pela crença de que as formas alternativas de tratamento comunitário seriam mais eficazes em relação ao custo. Até agora, contudo, a maioria das investigações procurando demonstrar a eficácia desses objetivos políticos desenvolveu-se em países industrializados e há dúvidas quanto à viabilidade da generalização dos resultados para os países em desenvolvimento.” (WHO; The World Health Report 2001)

Até mesmo no Canadá, uma das nações com melhor qualidade de vida do planeta, a desinstitucionalização psiquiátrica têm sido um estrondoso fracasso, como nos mostra o seguinte trecho desta matéria do jornal canadense The Province.

“É incrível pensar que a inovadora série de reportagens do The Province sobre os doentes mentais sem casa ou abrigo - a premiada "Loucura nas nossas ruas", escrita pelos jornalistas Grindlay Lora e Ann Rees - apareceram neste jornal há 11 anos. Infelizmente, esse é o tempo que tem sido evidente para qualquer pessoa com olhos para enxergar que as políticas de cuidados para com os doentes mentais têm sido um trágico fracasso. Basta olhar ao redor. Centenas de pessoas estão vulneráveis a uma lamentável e miserável existência nas nossas ruas, habitações sujas e em locais perigosos ou em prisões - em grande parte devido aos equívocos dos “advogados da justiça social” para mantê-los fora das instituições psiquiátricas. Mas as pessoas mentalmente doentes que assombram as nossas ruas e nos levam a afastar o olhar por constrangimento devem realmente servir como prova do fracasso da desinstitucionalização.” (The Province; 29 de outubro de 2006).


Também nos EUA a desinstitucionalização tem se mostrado trágica, como mostram as citações seguintes:

“A desinstitucionalização gerou uma crise de doença mental devido ao despejo de pessoas dos hospitais psiquiátricos sem garantir que estes recebessem medicação e serviços de reabilitação na comunidade. Como resultado, o doente mental não tem nenhum lugar para ir para tratamento e apoio. Dois milhões de doentes mentais graves não recebem tratamento psiquiátrico.
Em vez disso, eles foram parar em prisões onde são desprovidos de dignidade, de um tratamento adequado e também de compreensão. Doentes mentais foram despejados de hospitais psiquiátricos pois divulgou-se a idéia de que isto lhes permitiria viver em um ambiente mais livre e mais humano com a melhora de seu bem-estar. Em vez disso, vemos instituições psiquiátricas sendo fechadas e amputados os seus orçamentos. Desnecessário dizer que tal utopia não ajudou os milhares de doentes mentais que, além de sofrer de doenças mentais, agora também têm que sofrer as injustiças do sistema social.” (DMCA NEW; Mentally Ill in Jail)


“A redução de leitos psiquiátricos em hospitais públicos aumentou o risco de suicídio em pelo menos 81 suicídios por ano estatisticamente atribuíveis.” (Deinstitutionalization and Suicide in the United States; Tim-Allen Bruckner, Ph.D; Jangho Yoon, Ph.D; Richard Scheffler; University of California, Berkeley; National Institute of Mental Health)

Resta-nos, portanto alguns questionamentos. São eles:

-Se a Organização Mundial de Saúde, abarrotada de burocratas e de estatísticas sem fim, não desconhece a realidade dos países industrializados e nem tampouco desconhece a realidade dos países em desenvolvimento, e sabendo que tanto nos países mais desenvolvidos como nos países mais pobres este modelo de assistência em saúde mental não está funcionando, por que ainda insiste em promovê-lo em larga escala? E por que o Brasil o adotou de modo tão passivo? Lembrando aqui que a OMS não é, de modo nenhum, representante das comunidades psiquiátricas destas nações e muito menos sua porta-voz.

Referências:
-American Academy of Psychiatry and the Law
-E. Fuller Torrey, Psychiatrist: How America's Failure to Treat the Seriously Mentally Ill Endangers Its Citizens (2008)
-WHO;World Health Report (2000)
-WHO; The World Health Report (2001)

-World Health Organization’s Ranking of the World’s Health Systems
-Constans, Gabriel. (1991) This Is Madness: Our Failure To Provide Adequate Care For the Mentally Ill. U.S.A. Today. 120.2558: 77-78
-Dennis, Deborah L., et al. (1991) A Decade of Research and Services for Homeless Mentally Ill Persons, Where Do We Stand. American Psychologist. 1129-1138.
-Isaac, Rael Jean & Armat, Virginia C. (1990) Madness in the Streets: How Psychiatry and the Law Abandoned the Mentally Ill. New York: Free Press. Toronto. Collier Macmillan Canada.
-Deinstitutionalization and Suicide in the United States; Tim-Allen Bruckner, Ph.D; Jangho Yoon, Ph.D; Richard Scheffler; University of California, Berkeley; National Institute of Mental Health
-Lahey, Benjamin B. (1992) Psychology: An Introduction. Wm. C. Brown Publishers.
-Lamb, H. Richard. (1985) The Homeless Mentally Ill, A Task Force Report of the American Psychiatric Association. Washington, D.C.
-Lamb, H. Richard. (1990) Will We save the Homeless Mentally Ill? American Journal of Psychiatry. 147:5, 649-651.
-Leo, John. (1993) Distorting the Homeless Debate. U.S. News & World Report. 115.18: 27.
-Leshner, Alan I. et al. (1992) Outcasts on Main Street, Report of the Federal Task Force on Homelessness and Severe Mental Illness. Washington, D.C. U.S. Department of Health & Human Service.
-Levine, Irene S. & Rog, Debra J. (1990) Mental Health Services for Homeless Mentally Ill Persons: Federal Initiatives and Current Service Trends. American Psychologist. 963-968.
-Marcos, Luis R., et. al. (1990) Psychiatry Takes to the Streets: The York City Initiative for the Homeless Mentally Ill. American Journal of Psychiatry. 147:11. 1557-1561
-Szasz, Thomas. (1988) Homelessness and Mental Illness. U.S.A. Today. 3:23-31.
-Torrey, Edwin Fuller. (1988) Homelessness and Mental Illness. U.S.A. Today. 3:26-27.
-Torrey, Edwin Fuller. (1988) Nowhere to Go - The Tragic Odyssey of the Homeless Mentally Ill. Harper and Row.
-The Province; 29 de outubro de 2006; Canada
-DMCA NEW; Mentally Ill in Jail
-Ministério da Saúde; Portal Saúde; Os Centros de Atenção Psicossocial

 

Dr Eduardo Adnet

Médico Psiquiatra e Nutrólogo