Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

Gastos Exorbitantes Consumo de Álcool e Megalomania no Transtorno Bipolar


Embora a megalomania seja uma entidade psicopatológica distinta e já muito bem conhecida e estudada, a realidade é que indivíduos bipolares autênticos podem apresentar comportamentos mórbidos que podem ir bem além das já bem conhecidas expressões da megalomania.

Digo bipolares autênticos porque não faltam exemplos e casos de pessoas que já me procuraram julgando serem bipolares (ou tendo sido diagnosticadas como) e que na realidade não eram bipolares. Infelizmente, assim como acontece com a depressão, o diagnóstico da bipolaridade encontra-se consideravelmente vulgarizado.

Afirmo, sem a menor hesitação, que os prejuízos da megalomania (mania - ou ideação - de grandeza) tendem a ser bem menores do que os prejuízos causados pela megalomania bipolar nos estados de mania do Transtorno Bipolar. E de modo especial (e terrível) os gastos financeiros de uma pessoa bipolar em estado de mania (e também de hipomania), frequentemente parecem algo completamente absurdo diante dos olhos de pessoas que já assistiram a um terrível festival de gastanças exorbitantantes e até mesmo impressionantes. E tudo isto pode se agravar grandemente se entrar em cena o álcool etílico, em minha opinião técnica, o maior inimigo dos bipolares.

Gastos com compras absolutamente sem sentido, investimentos tresloucados, presentes extravagantes para amigos ou familiares, dívidas impressionantes, grandes despesas completamente desnecessárias, abuso de empréstimos e do cartão de crédito, destruição do orçamento familiar, dentre outros, muitas vezes são francas expressões do que chamo de megalomania bipolar com gloriosa destruição de dinheiro.
 


Tive a oportunidade de tratar de um paciente muito simpático, um homem gordo e corpulento, sorridente e de falar sedutor, o qual em estado de mania bipolar conseguia chamar a atenção para si de modo notável. O problema era que, uma vez cercado de atenção e dando ele próprio cordas ao seu próprio comportamento autodestrutivo, fosse segunda-feira ou sábado, tudo terminava em festa, ... e em dívidas, em muitas dívidas. Era sempre o centro das atenções e sempre fazia questão de pagar a conta. E por vezes... que volumosas contas!

Seus amigos o “amavam”, porém não o compreendiam, pois o que a outros olhos poderia passar como um simples comportamento extravagante, na realidade eram estados de mania severa onde suas finanças eram, repetida e severamente, golpeadas. Por vezes, completamente devastadas. Algo muito triste!

Neste caso particular, tudo piorava se o paciente ingerisse álcool. Havia, invariavelmente, uma exacerbação mórbida de seu estado, o que o levava a se comportar como se fosse um autêntico milionário, porém, não sendo. E nestas horas, não faltam bajuladores e aproveitadores.

Interessante e tristemente, a releitura de sua real condição financeira, passados dias ou semanas após sua descompensação, pareciam ser não somente a gota d’água para o seu muito sofrimento, mas era o fator desencadeante mais frequente que o conduzia a estados depressivos com sofrimentos lancinantes. Eram muito grandes as suas dores.
Tudo era agravado pelo abandono dos “amigos” pela sensação de espanto de seus familiares e também pelo desdém como por vezes era tratado até mesmo por pessoas que eram alvo de sua “generosidade” nos momentos de crise (surtos).

Faço aqui questão de ressaltar os graves prejuízos para sua doença e pessoa causados pelo consumo de álcool. Não era um etilista, mas um bipolar autêntico que simplesmente não conseguia manejar adequadamente o ato de beber, nem a sua sexualidade (hipersexualidade) e nem a administração de seu próprio dinheiro. Para ele, especialmente em momentos de frustração, começar a beber e a gastar era como que uma equivocada fuga da leitura que fazia de si próprio. Infelizmente, nesse caso, a bipolaridade era como o estopim da bomba de seus sofrimentos. Bastava acender o estopim e o caminho rumo à devastação financeira tinha quase sempre um início semelhante. Mecanismos de compensação ou de autogratificação à parte, a doença bipolar possui componentes característicos únicos e absolutamente inconfundíveis, especialmente, e como já dito, se agravada pelo consumo de álcool.

Sua generosidade dava lugar ao exagero, ao bizarro e ao absurdo em se tratando de destruir dinheiro. E, repito, o álcool era seu pior inimigo, algo como o lançar de gasolina sobre uma casa já em chamas.

O gastar excessivo, a hipersexualidade, a megalomania e a necessidade patológica por atenção são comportamentos muitas vezes diretamente associados ao Transtorno Bipolar.

O tratamento precoce é a melhor medida antes que a ruína financeira se instaure em situações como a supracitada.

Finalizando, e aqui também alertando, bipolaridade e álcool é uma das piores associações que alguém pode conseguir conceber!

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Dr Eduardo Adnet

Médico Psiquiatra e Nutrólogo