O Cérebro não declina e não deteriora aos 45 anos. Dr Eduardo Adnet - Médico Psiquiatra

O Cérebro não declina e não se deteriora aos 45 anos

 

Neste início de 2012, uma notícia passou a estar estampada praticamente em toda a mídia: “Cérebro começa a deteriorar aos 45 anos”, ou “Capacidade cognitiva começa a diminuir a partir dos 45 anos, diz estudo”. O Cérebro começa a  se deteriorar aos 45 anos? Será mesmo?

Um controverso estudo publicado na revista científica British Medical Journal (Jornal Britânico de Medicina) afirma que atividades cerebrais começam a declinar aos 45 anos. Este estudo, coordenado pela psicóloga e epidemiologista indiana Archana Singh-Manoux, e (curiosamente) superdivulgado pela mídia nacional e internacional têm causado debates, discussões e muitas contestações.
Há até mesmo quem considere o atual estudo apresentado por Archana Singh-Manoux um espetacular lixo em razão de sua (também curiosa) generalização e também da metodologia utilizada.

Desde o ano 2000, a epidemiologista Archana Singh-Manoux vêm buscando associar diversos fatores à queda do desempenho cognitivo e ao envelhecimento cerebral, e ainda associações com a Doença de Alzheimer.
Archana Singh-Manoux se graduou em Psicologia pela Universidade de Delhi, Índia, em 1988. Em 2000, começou a trabalhar no Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública no University College London, e escreveu uma tese em que foi premiada como vencedora. Seu projeto chama-se: Determinants of health inequalities in ageing populations: evidence from the French Gazel and British Whitehall II cohort studies (Determinantes de desigualdades em saúde entre populações idosas: evidências retiradas do French Gazel e do  British Whitehall II).

O recente estudo de
Archana, tão divulgado na mídia, na realidade, não traz nada de original, e é baseado no chamado Whitehall Study, um estudo realizado na Inglaterra entre funcionários públicos e que buscava investigar a taxa de mortalidade e os fatores sociais determinantes da saúde entre funcionários públicos ingleses entre 20 e 64 anos. A ênfase estava sobretudo no que dizia respeito às taxas de mortalidade entre os servidores públicos relacionadas a fatores cardiorrespiratórios. Foram avaliados 18.000 funcionários públicos do sexo masculino. O primeiro estudo, chamado de Whitehall I foi iniciado em 1967.

Um segundo estudo, o Whitehall II, examinou 10.308 funcionários públicos com idades entre os 35 e 55 anos, sendo que desta vez dois terços eram homens e um terço mulheres. O estudo foi coordenado pelo epidemiologista inglês Michael Gideon Marmot, que foi comissário da Comissão da Organização Mundial da Saúde sobre Determinantes Sociais da Saúde. E é nessa carona que Archana Singh-Manoux segue em suas pesquisas. Segundo ela própria declara em sua página de apresentação na University College London, seus principais interesses são o Envelhecimento Cognitivo e as Desigualdades na Saúde.
 

  "é importante determinar a idade de início do declínio cognitivo, já que possivelmente é mais eficaz atuar desde o começo, em particular com medicamentos, para mudar a trajetória do envelhecimento cognitivo" (Archana Singh-Manoux)


Convém lembrar que o estudo inicial, o Whitehall I, enfatizava as doenças cardiorrespiratórias como cofator responsável pela mortalidade de funcionários públicos ingleses. Porém, após o Whitehall II, passou-se a afirmar que “tudo o que é bom para o coração é bom para o cérebro”, o que sugere uma extrapolação do tal estudo Whitehall II, também chamado do “Estudo do Estresse e Saúde”. Extrapolação, digo, pois a conclusão parcial do estudo apontou para uma relação entre estresse no ambiente de trabalho de funcionários públicos britânicos e doenças cardiovasculares.

 

Porém, agora surge essa curiosa associação a um suposto declínio do desempenho cerebral, proposta pela psicóloga Archana Singh-Manoux. Muito, muito controverso e também suspeito! Ainda mais em uma época em que se afirma que o “Aquecimento Global” é uma verdade científica, quando, na realidade, miríades de cientistas de vários países afirmam não haver nenhuma evidência científica que possa suportar a teoria do aquecimento global, pelo que passou até mesmo a ser chamado de Climategate (uma alusão ao escândalo envolvendo o presidente norte-americano Richard Nixon, o Caso Watergate). Ficou assim sendo chamado porque foi descoberto que havia cientistas fraudando dados a fim de forjar gráficos para suportar a teoria (falsificada) do aquecimento global.


O estudo de Archana Singh-Manoux sobre o suposto declínio das funções cognitivas não está sendo tão bem aceito assim na comunidade científica, diga-se, além de uma visível reação de desconfiança por parte do público de um modo geral, pelo menos em território estrangeiro.

Pela pobreza de informações que se têm a respeito do envelhecimento do cérebro antes da senescência (a velhice) propriamente dita, particularmente não sou nada simpático a esse estudo apresentado pela psicóloga e epidemiologista
Singh-Manoux, muito pelo contrário.
 

O tal estudo de Archana Singh-Manoux além de não provar (i.e. cientificamente demonstrar) nada, nem sequer pode sugerir o que parece pretender no que tange ao suposto declínio do desempenho cognitivo na população acima dos 45 anos. Aliás, diga-se, os objetivos originais desse levantamento não eram o de avaliar o desempenho cognitivo dos participantes, mas sim avaliar fatores de risco cardiovasculares e metabólicos, antropometria e doenças em uma restrita amostra de funcionários públicos ingleses. As avaliações (os testes cognitivos) só foram introduzidas posteriormente no tal estudo, nas fases 5, 7 e 9, ou seja, 12 anos após o início do estudo (Whitehall II).

O estudo afirma ter identificado declínios cognitivos na amostra estudada (i.e. dentre os participantes), porém dá um enorme e estranho salto na hora da conclusão, a qual diz o seguinte:

 

"Declínio cognitivo já é evidente na meia-idade (idade 45-49)."

 

Seguindo a rápida, intrigante e vasta propagação deste restrito estudo pela mídia de diversos países (e isto é o que mais chama a atenção), percebe-se que há manchetes em jornais do mundo todo afirmando o seguinte: "O Declínio do Cérebro começa aos 40"; "Declínio cerebral começa antes do que se pensava, aos 45 anos"; "Declínio do Cérebro começa aos 45", e por aí vai, como se a conclusão do estudo de Archana Singh-Manoux pudesse ser, já imediatamente, estendida a todos os cérebros humanos, em todo o planeta. Trata-se de uma sugestão implícita, inadequada e francamente distorcida.

 

Preocupante também é a forte associação que este estudo faz entre declínio de funções cognitivas em populações de meia idade com a Doença de Alzheimer e com a Demência.

Na seção de Referências para o estudo de Archana Singh-Manoux, aparecem nada menos do que 6 publicações que tratam do assunto Alzheimer, além de 11 referências na apresentação do estudo utlizando a palavra Demência.

 

São muitos os fatores que podem interferir no desempenho cognitivo ao longo da vida, sendo o envelhecimento um dos principais dentre eles. Porém, o envelhecimento natural do cérebro não necessariamente quer dizer (ou mesmo sugerir) que se trate da entidade patológica chamada Demência ou da Doença de Alzheimer.

 

Aliás, na seção "Implicações e Conclusões" do referido estudo, já é adiantado que existe a pretensão de substituir o nome Demência por Transtorno Cognitivo Maior e Transtorno Cognitivo Menor, isto no DSM 5, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), uma publicação da Associação Americana de Psiquiatria, o que, juntamente com o estudo de Archana Singh-Manoux, pode fazer com que a Demência deixe de ser uma doença com estreitas relações com a idade.

 

Estudos desse nível possuem o potencial para colaborar com uma possível explosão de diagnósticos de Demência e da Doença de Alzheimer mundo afora (ou quem sabe em um futuro próximo: Transtorno Cognitivo Maior e Transtorno Cognitivo Menor?). E quantos desses diagnósticos estariam realmente corretos?

E, ainda, quantos desses casos realmente necessitariam de intervenção? Mas, novamente, o estudo em questão já revela uma intenção de próximo passo a ser dado: “Determinar a idade em que potenciais intervenções possam ser benéficas”.

Que idade será que determinarão? E que intervenções seriam essas?

 

Será que vão lançar alguma "medicação anti-envelhecimento", e para ser tomada enquanto ainda se é jovem?

Segundo a epidemiologista Archana Singh-Manoux, que coordenou o tal estudo: "é importante determinar a idade de início do declínio cognitivo, já que possivelmente é mais eficaz atuar desde o começo, em particular com medicamentos, para mudar a trajetória do envelhecimento cognitivo". (France Presse)

 

Tudo isso me parece, no mínimo, algo intrigante e muito curioso. O fato é que esse estudo não prova, de modo nenhum, que o cérebro das pessoas comece a experimentar declínio cognitivo a partir dos 45 anos. Pode até ser que no futuro consigam demonstrar alguma coisa nesse território. Mas ainda não foi desta vez.


Algumas Pessoas Idosas e seus Feitos Notáveis

Harry Louis Bernstein - Autor anglo-americano, publicou seu primeiro livro, The Invisible Wall, aos 96 anos, em 2007.

Mae Laborde – Atriz americana de televisão e cinema, começou sua carreira aos 90 anos, e continua ativa até hoje, aos 101 anos.

Bernando Lapallo – Médico brasileiro, naturalizado americano, escreveu seu primeiro livro aos 107 anos, “Age Less/Live More: Achieving Health and Vitality at 107 and Beyond” (Envelheça menos e Viva mais: Atingindo Saúde e Vitalidade aos 107 anos e ainda mais além). Hoje com 110 anos, é o bloggeiro mais idoso do mundo.

Nola Ochs – Graduou-se pela Fort Hays State University aos 98 anos.

Moisés – da Bíblia – Começou sua missão de conduzir o povo judeu para fora do Egito em direção à terra prometida aos 80 anos. Morreu com 120 anos.

Albert Einstein – Físico e Matemático, esteve ativo durante toda a sua vida, experimentou o apogeu intelectual em sua velhice. Morreu aos 74 anos.

Isaac Newton – Matemático Inglês, físico, astrônomo e filósofo. Esteve ativo até a sua morte aos 84 anos. Em seus últimos dias de vida, ainda escreveu dois livros: The Chronology of Ancient Kingdoms Amended (1728) e Observations Upon the Prophecies of Daniel and the Apocalypse of St. John.

E poderia aqui continuar por dias a fio.

E sobre o tal estudo do envelhecimento cognitivo, deixo uma sugestão: Não acreditem em tudo o que lerem nos jornais!

 

Nota: Para os que desejarem examinar o tal estudo, o link está aqui.

 

Médico Psiquiatra e Nutrólogo

 

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