Paixão não é amor. Nunca foi e jamais será a mesma coisa.

Este é um breve artigo que escrevo a fim de discorrer, em curto espaço de tempo, sobre o significado das paixões e sobre os potenciais sofrimentos a elas associados. A perspectiva sob a qual este artigo é escrito é a assertiva de que paixão não é a mesma coisa do que amor. Tendo isto sido compreendido, sigamos em frente.

Embora não haja idade para se apaixonar, (em Inglês utilizam a expressão to fall in love with), Curitiba é uma cidade com muitas faculdades. Sendo assim, não é surpreendente que eu seja procurado em meu consultório por vários adultos jovens (esta faixa etária específica compreende, estatisticamente, indivíduos entre os 21 e os 24 anos de idade). E nesta faixa etária, porém de modo nenhum restrita a ela, como já disse, não é incomum a presença de sofrimentos relacionados a paixões. E podem ser muitos estes sofrimentos.

Não que as paixões sejam um mal em si mesmo, mas sim as decorrentes leituras equivocadas que muitos costumam fazer de si próprios diante de situações onde o coração (ou a mente) se fixa obsessivamente em alguém.

Estresse (ou Stress), ciúme patológico, episódios depressivos, manifestações ansiosas, exacerbações do transtorno obsessivo compulsivo, afloramento de sinais de transtornos da personalidade, transtorno de adaptação, abuso de substâncias, transtornos do sono, dentre outros, são diagnósticos que podem acompanhar (ou estar sendo causados/desencadeados) por sentimentos de paixão (ou desejo adoecido obsessivo e egocentrado de possessão).

A realidade do apaixonado é, não infrequentemente, uma realidade possessiva e egocentrada, algo como se o Cosmos girasse não em torno do alvo do desejo, o objeto da paixão, mas em torno de quem deseja, em torno do apaixonado. A vida parece perder um bocado do seu sentido, a auto-estima é frequentemente comprometida e a irritabilidade parece ser uma constante. Há casos, diga-se, em que a preocupação com a traição ou com o abandono podem se assemelhar a francos episódios delirantes. Em não poucas vezes, com o decorrer do tempo, a relação entre o apaixonado e a pessoa (o objeto do desejo, ou o alvo de sua paixão) pode assumir características explicitamente patológicas. Neste caso específico, o diagnóstico de ciúme patológico muitas vezes surge, sendo ou não exatamente precisa a sua aplicação.
Também a queda do desempenho no trabalho, nos estudos e mesmo nas atividades mais simples da vida diária apresentam visível comprometimento.

A paixão é um intenso desejo de posse, de domínio e de proeminência do apaixonado sobre a sua paixão (o objeto do desejo). É, em última análise, uma intensa e angustiante fixação sobre a pessoa de alguém. A tolerância do apaixonado para com sua paixão tende a diminuir com o tempo, dando lugar, e cada vez mais, a um sentimento egoísta de possessão, de domínio, de necessidade incontrolável de controle (acompanhado da preocupação com a vigilância sobre as condutas e comportamentos da pessoa), o que muitas vezes resulta em uma relação de trocas desproporcional em favor do apaixonado.

Não é por nada que este tema é habilmente explorado por romancistas, novelistas e também pela publicidade, pois diz respeito à natureza humana, aos ganhos psíquicos e afetivos que se relacionam com o desejo de supremacia do ego projetado sobre o objeto de seu desejo.

Houve uma paciente da qual tratei, um caso de ciúme patológico severo, onde o simples torcer de pescoço de seu namorado já era o suficiente para suscitar o desencadeamento dos sintomas. O surpreendente neste caso específico, era que a paciente sofria de anorgasmia (simplesmente nunca tivera um orgasmo em toda a sua vida), mas, e mesmo assim, sua fixação em seu namorado incluía forte componente sexual. A despeito disso, ainda que desejando colher o que pudesse ser salvo da sua relação com seu namorado, o resultado vivenciado era traduzido em sofrimento, tormento e desassossego. A fixação era persistente e rebelde.
O tratamento consistiu em uma combinação de psicoterapia e psicofarmacoterapia (o tratamento com medicação).

Sobre o Amor

Como já dito, amor não é paixão e paixão não é amor, e deliberadamente citei a expressão da língua inglesa to fall in love with, uma vez que esta própria expressão confunde a idéia (e as ideações) na mente do apaixonado. De modo vulgar e inapropriado, “amar” se tornou como que sinônimo de desejo, de sexualidade, de interação sexual, em uma situação de franco desprezo e de vulgarização diante do real significado de amar.

Finalizando, uma das medidas mais sábias a serem tomadas no sentido de se prevenir este tipo de sofrimento é exercer a inteligência e dissociar o mórbido do saudável, e isto de modo preventivo a fim de que, o quanto antes, se possam afastar as primeiras manifestações de uma relação potencialmente doentia que, não invariavelmente, terminará em sofrimento, em dor. E por vezes, em muita dor.

Ditas estas coisas, termino com a mais sublime definição de amor que conheço, e que nada tem a ver com paixão.

“Eu poderia falar todas as línguas que são faladas na terra e até no céu, mas, se não tivesse amor, as minhas palavras seriam como o som de um gongo ou como o barulho de um sino.
Poderia ter o dom de anunciar mensagens de Deus, ter todo o conhecimento, entender todos os segredos e ter tanta fé, que até poderia tirar as montanhas do seu lugar, mas, se não tivesse amor, eu não seria nada.
Poderia dar tudo o que tenho e até mesmo entregar o meu corpo para ser queimado, mas, se eu não tivesse amor, isso não me adiantaria nada.
Quem ama é paciente e bondoso. Quem ama não é ciumento, nem orgulhoso, nem vaidoso.
Quem ama não é grosseiro nem egoísta; não fica irritado, nem guarda mágoas.
Quem ama não fica alegre quando alguém faz uma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo.
Quem ama nunca desiste, porém suporta tudo com fé, esperança e paciência.
O amor é eterno. Existem mensagens espirituais, porém elas durarão pouco. Existe o dom de falar em línguas estranhas, mas acabará logo. Existe o conhecimento, mas também terminará.
Pois os nossos dons de conhecimento e as nossas mensagens espirituais são imperfeitos.
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Agora que sou adulto, parei de agir como criança.
O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado, mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é imperfeito, mas depois conhecerei perfeitamente, assim como sou conhecido por Deus.
Portanto, agora existem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. Porém a maior delas é o amor.” 1 Coríntios 13:1-13

 

Médico Psiquiatra e Nutrólogo

 

 

 

 

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